
Expedição rio Belém


Foto: Acervo Ncep

Foto: Acervo Ncep

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Foto: Acervo Ncep
Projeto de extensão leva adolescentes da mais antiga área favelizada de Curitiba até a nascente do rio que chega poluído à comunidade onde eles moram
vida e morte de um rio que cruza uma aldeia
Durante uma ação educomunicativa junto a estudantes do Colégio Estadual Manoel Ribas – instituição que atende crianças e adolescentes da mais antiga zona favelizada de Curitiba, Paraná – uma questão surgida em sala de aula gerou uma expedição urbana. A partir de um dedo levantado, pedindo a palavra, surgiu um projeto extensionista.

aos fatos
Ao descobrir que o Rio Belém, que corta de ponta a ponta a comunidade de 6,5 mil moradores, nasce limpo e assim permanece em boa parte de seu trajeto, um aluno quis saber o porquê de tanta sujeira nas águas que passam nas portas do lugar em que ele vive. Além do mau cheiro e da cor cinzenta, o rio cruza a Vila Torres com pneus, sofás e, não raro, corpos desovados. Um dos estigmas da comunidade é estar à beira de um rio “podre”, o que impacta a estima dos moradores sobre o local onde vivem.
Em tempo – foi uma surpresa para professores e extensionistas descobrir que os estudantes do “Ribas” desconheciam o percurso do Rio Belém, cenário que veem das janelas de casa. A pergunta que veio do meio da sala serviu de alerta.
Por ironia, a fama de capital que mais separa lixo no Brasil se deve em boa parte aos coletadores que moram na Vila Torres, comunidade vizinha do cartão postal de Curitiba, o Jardim Botânico, endereço dos clicks que os turistas não cansam de registrar. Mal sabem que a 500 metros dos jardins que imitam o paisagismo do Palácio de Versalhes, na França, está plantada uma comunidade empobrecida, refém da violência, responsável por parte expressiva da reciclagem feita na cidade mundialmente famosa por seu protagonismo ecológico.
Levar 16 adolescentes até o Parque das Nascentes, onde o Rio Belém brota limpo e saudável, e mostrar como e por que ao cruzar a cidade as águas ficam poluídas, trouxe um sem número de indagações aos jovens expedicionários: Para quem é feita a cidade? Um rio pode ser despoluído? E por que aquela sujeira toda – que não é gerada pelos moradores da vila – fica sob responsabilidade justo do grupo que cuida das sobras da capital? A vida e morte do Rio Belém, por si só, exige tantos saberes que serviria de argumento para estudar Biologia, Literatura, Matemática, Física e, sobretudo, Sociologia.
As respostas todas não foram dadas. E as ações educomunicativas ainda estão em curso. Deu-se o primeiro passo, o do entendimento de que o rio nasce como natureza, e assim deveria permanecer; e que todos os habitantes da cidade têm direito a esse presente, mas... o rio “entra pelo cano”, recebe todas as sobras urbanas e vitimiza uma comunidade que desde meados dos anos 1950 faz parte da capital paranaense, mesmo que muitas vezes seus moradores tenham dúvidas sobre isso.
os personagens dessa história
“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”
(Fernando Pessoa)

A vila torres
Estima-se que Curitiba tem perto de 250 ocupações irregulares. Ao lado da Vila Parolin e da Vila Nossa Senhora da Paz (antigo “Inferninho” da Santa Quitéria), a Vila Torres (ex-Vila Pinto) é a comunidade favelizada mais antiga da capital paranaense. É também a mais próxima da malha urbana. Está a 4,5 quilômetros do turístico Jardim Botânico; e a 4,2 quilômetros do Marco Zero da cidade, a Praça Tiradentes. Uma avenida separa a vila do majestoso prédio da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep); e é vizinha “de muro” da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Um campinho de futebol a separa do Colégio Nossa Senhora Medianeira, dos missionários jesuítas, um dos mais caros do município. Com área dividida entre os bairros Prado Velho, Guabirotuba e Jardim Botânico, a Vila Torres soma 6,5 mil moradores e tem 75% de sua área regularizada. Mesmo com boa parte de seus moradores pagando IPTU e outras taxas, local padece com sub habitação, urbanização precária, mortes por leptospirose e violência causada por duas gangues rivais – a “Turma de Baixo” e a “Turma de Cima”. Paralelo, é considerada modelo em organização popular.
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o rio belém
O rio símbolo de Curitiba faz parte da história do desenvolvimento da cidade e está na origem da Vila Torres, surgida nessas margens na década de 1950, assim que as primeiras geadas passaram a expulsar agricultores das lavouras de café do Paraná. O Rio Belém tem 21,4 quilômetros e atravessa 36 bairros de Norte a Sul da cidade, recebendo no seu leito as falhas do saneamento básico. Na contramão dos protocolos ecológicos, foi canalizado em boa parte do Centro de Curitiba, com o argumento de evitar enchentes e favorecer o desenvolvimento urbano. Ao chegar à Vila Torres, o rio está sem vida e carrega tudo o que a população ali despeja: dejetos, móveis, plásticos e corpos.


o ribas
O Colégio Estadual Manoel Ribas é a maior instituição de ensino pública que atende os moradores da Vila Torres. Fica dentro da comunidade e é frequentada por 500 alunos. Como a vila não é reconhecida pela prefeitura como bairro, a escola está na divisa dos bairros Prado Velho e Jardim Botânico, e está dentro do complexo que forma a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Desde 2010, o “Ribas” passou a funcionar em tempo integral, a partir de uma decisão feita pelo Governo do Estado e o Ministério Público em parceria com a Associação de Moradores da Vila Torres, com o objetivo de combater a vulnerabilidade social da região. A medida é controversa, pois o colégio perdeu muitos estudantes. A integralidade no ensino acaba favorecendo crianças e adolescentes de famílias mais estruturadas financeiramente.
professor davi
Davi Brito da Silva, 43 anos, nasceu em Itabuna, no sul da Bahia. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em 2009 ingressou no Colégio Estadual Manoel Ribas como professor de Língua Portuguesa. É o idealizador do projeto pedagógico “Jardim Secreto”, que atrai observadores de várias partes do Paraná, por sua originalidade e bons resultados no aprendizado. Todo o “Ribas” é marcado pelas ações literárias do professor, que criou uma engenhosa fusão entre os conteúdos de sua disciplina e a relação com a natureza. Parceiro do Núcleo de Comunicação e Educação Popular (Ncep), da UFPR, Davi participou de todas as etapas da “Expedição Rio Belém”.


Jardim secreto
O Jardim Secreto, criado em 2015, é uma área verde dentro do Colégio Estadual Manoel Ribas e se propõe a ser uma alternativa à sala de aula para crianças e adolescentes da Vila Torres. O local – inspirado no título criado por Frances Hodgson Burnett – segue as diretrizes da agricultura orgânica: as espécies de plantas são conviventes; há um galinheiro e os animais têm nomes de personagens da literatura, como Emma Bovary e Dom Quixote.

Foto: Acervo Ncep
Sob a orientação do professor Davi Brito, nesse espaço que é um convite à imaginação os estudantes praticam a proteção ao meio ambiente ao mesmo tempo em que estudam literatura. Parte da “Expedição Rio Belém” nasceu nesse espaço crítico à plataformização do ensino, praticado em larga escala nas escolas do Paraná.
conselheira maurina
Maurina Carvalho da Silva, 67 anos, soma quase 50 anos como moradora da Vila Torres. É personagem símbolo da comunidade. Mudou-se para a região depois da Geada Negra de 1975, evento climático que devassou os cafezais paranaenses, expulsando do campo um sem-número de agricultores. Neste tempo, tornou-se observadora privilegiada. Viu a mudança do nome de Vila Pinto para Vila Torres, numa reação ao preconceito dos curitibanos contra o local.
Assistiu à exploração do jornalismo policial, que ainda teima em reduzir a vila a uma briga de facções; e assistiu ao florescimento do movimento social na comunidade, gerando biblioteca, a ONG Passos da Criança, praças e restaurantes solidários. Com o surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1991, Maurina cumpriu três mandatos como conselheira tutelar, tornando-se a liderança mais conhecida da capital na luta pelos direitos da infância. É presidente da Associação de Moradores Vila Torres e participante da “Expedição Rio Belém”.


Foto: Acervo Ncep

o ncep
O Núcleo de Comunicação e Educação Popular (Ncep) é um programa de extensão fundado em 2003, no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Participam do núcleo 25 alunos de Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Produção Cultural. Programa segue os princípios da educomunicação e da pedagogia libertária do educador Paulo Freire. A gestão é horizontal e estão sob o “guarda-chuva” do núcleo quatro projetos de extensão: Educomunicação nas Escolas, Floresta Edições, A Laje e Comunicação e Saúde.
Esses projetos se subdividem em cerca de 15 ações diferentes, entre elas o Museu da Periferia Vila Torres, site que guarda a memória dessa comunidade. Foi ao mostrar o produto para estudantes do Colégio Estadual Manoel Ribas que surgiu a proposta da “Expedição Rio Belém”. Nas demais atividades, o núcleo tem parcerias com escolas de periferias urbanas, contraturnos em áreas favelizadas, população trans, moradores de ocupação, refugiados, sistema prisional e sistema de socioeducação, entre outros.

memórias de um percurso

A “Expedição Rio Belém” aconteceu no dia 19 de setembro de 2025, a partir das 13h30. A equipe do Núcleo de Comunicação e Educação Popular, acompanhada de um dos professores coordenadores, Gabriel Alexandre Bozza, teve como condução um ônibus da UFPR. Grupo partiu do Departamento de Comunicação, no bairro Cabral, até o Colégio Estadual Manoel Ribas, na Vila Torres.
Chegando ao colégio, encontramos o professor Davi Brito, parceiro do projeto, a presidente da associação de moradores Maurina Carvalho e os 16 alunos que iriam para a expedição – estudantes do 7º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio. No início do percurso, houve apresentações para que todos nos conhecêssemos. E assim partimos em direção à primeira parada, 21 quilômetros adiante, com muita cantoria e animação vinda dos estudantes e do professor Davi.

parque nascentes do belém
O Parque Nascentes do Belém, no bairro do Cachoeira, em Curitiba, é o lugar que guarda a nascente do Rio Belém. Chegando lá, os alunos foram guiados para a descida que leva ao berço do rio. No percurso e na área em que tudo começa, explicou-se o que era aquele lugar e como aquele olho de água se torna o rio poluído que passa pela Vila Torres. Os adolescentes usaram câmeras fotográficas do programa de extensão para fazer seus próprios registros da expedição.
parque São lourenço
A próxima parada foi o Parque São Lourenço, no bairro de mesmo nome, lugar turístico e de lazer, região nobre da capital por onde o rio ainda passa completamente limpo. Instalados no parque, fizemos um piquenique, com lanches trazidos pelo Ncep e pelos próprios alunos. Durante a refeição, novamente tomamos um tempo para explicar para os alunos que ali o rio passava limpo e era zelado pela prefeitura da cidade, enquanto o trecho da Vila Torres não recebia o mesmo apreço.


passeio público
Na sequência, a “Expedição Rio Belém” se dirigiu ao Passeio Público, logradouro histórico no Centro de Curitiba, criado em 1886 para conter os alagamentos provocados pelo Rio Belém. Este é o primeiro lugar do percurso em que a água se torna imprópria. A 200 metros da lagoa formada pelo Belém no Passeio Público, o rio está canalizado, tornando-se território livre para esgoto doméstico clandestino, vindo do saneamento inconcluso e não monitorado; e do despejo por parte de moradores. A classificação da água está na categoria “péssima”. Dali, o Belém segue “escondido” pelos bairros Centro, Rebouças, Água Verde, até aparecer de novo, e poluído ao extremo, na Vila Torres.
canal exposto
Em seguida, paramos no meio da Rua Conselheiro Raul Viana, onde o Rio Belém pode ser visto exposto por meio de um canal. A parada não estava programada, mas a curiosidade dos adolescentes ao passar ao lado do rio levou a adicionar mais uma conversa. Lá, já era mais evidente como a poluição afetava o rio no Centro da cidade.

Vila torres
Para fechar a “Expedição Rio Belém”, retornamos à Vila Torres, local de origem do passeio. Ao rever o rio, os participantes surpreenderam principalmente com a diferença do cheiro, que era inexistente ou até mesmo bom nos parques pelos quais passamos. Evidenciamos os problemas que fazem o rio ser poluído na vila e que a culpa não é dos moradores da comunidade. Como desfecho, com boas políticas e boas práticas essa realidade pode ser mudada. E todos estamos convidados a lutar por isso. De volta ao Colégio Estadual Manoel Ribas, fizemos nossas últimas falas e as escutas necessárias para a avaliação e continuação do projeto.

retorno da visita
Ao voltarem para a escola, os alunos comentaram com outros colegas o quão chocante foi retornar à Vila Torres e sentir o cheiro do rio novamente, um odor forte e insalubre que acabou sendo naturalizado pelos moradores. Esses comentários geraram interesse entre os demais alunos da escola em conhecer a nascente e o caminho do rio. Por isso, o projeto continuará em mais expedições ao Rio Belém e também em ações para chamar atenção da sociedade sobre o estado do “Belém”. Além disso, os alunos também produziram materiais escritos, que potencializam o processo educomunicativo, cujo ponto de partida é a dialogicidade.

resultados da viagem educomunicativa
A curiosidade e interesse dos adolescentes moveram o percurso do Rio Belém, desde sua nascente até a Vila Torres. Ao ver pessoalmente a diferença no cuidado do rio na comunidade em comparação a outros bairros na cidade, mais questionamentos surgiram em relação ao planejamento urbano de Curitiba. A visita teve a intenção de mostrar aos alunos que a população da Vila Torres não é a culpada pelo estado precário do rio, considerando que é algo que foge do alcance da comunidade, mas que o cuidado com o meio ambiente deve permanecer apesar de toda circunstância. A atividade cumpriu o objetivo de instigar tanto a conversa sobre questões sociais quanto ambientais, incentivando o senso crítico

do museu à expedição
APROXIMAÇÃO COM A VILA
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O contato do NCEP com a Vila Torres se iniciou em 2018, a partir da necessidade de registrar a história da comunidade, que figura entre as mais antigas de todo o Paraná. A proposta partiu da ONG Passos da Criança — uma organização que trabalha no processo de aprendizagem das crianças da Vila Torres. ONG manifestou o baixo apreço dos alunos do contraturno, aos quais atende, pelo local onde vivem, quase sempre retratado pela mídia como território de violência e tráfico. Um espaço museológico, com fins didáticos, poderia ajudar a reverter esse quadro.


Crianças da Vila Torres em frente à ONG Passos da Criança.
Foto: Acervo Ncep
Placa da ONG Passos da Criança.
Foto: Acervo Ncep
A construção do site “Museu da Periferia” (link para o site), iniciada em 2018, firmou uma parceria entre o NCEP, Associação de Moradores da Vila Torres e ONG Passos da Criança. O projeto inclui postagens de informações recentes, pequenos vídeos com histórias da vila contadas por moradores históricos, ações educativas, fotografias e documentos. Como parte do processo, a base do site foi mostrada em espaços educacionais, para que alunos e professores dessem sugestões à construção do museu. Foi nessa etapa que, em 2025, o Ncep e o Colégio Estadual Manoel Ribas – que recebeu várias visitas para a apresentação do site – criou o projeto paralelo “Expedição Rio Belém”.

MUSEU DA PERIFERIA
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Capturas de tela do website Museu da Periferia. Da esquerda para a direita: a sessão inicial do site, sessão "A Vila por dentro" e sessão "Como usar esse site".
Colégio estadual manoel ribas
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A parceria entre o NCEP e o Colégio Estadual Manoel Ribas teve início em 2011. Inicialmente, criou-se uma rádio com os alunos, a Ribas News, e por meio desses produtos sonoros os estudantes desenvolveram um debate crítico sobre o mundo que os cercava. Em 2018, por iniciativa da escola a parceria chegou ao fim e só voltou a existir em 2024, após um contato com o professor Davi Brito, docente de Língua Portuguesa e criador do projeto Jardim Secreto. Assim, em 2025, o NCEP e o professor Davi colocaram em prática o primeiro projeto nascido da parceria: a “Expedição Rio Belém”.


Alunos da Manoel Ribas fazendo pesquisas para o Ribas News.
Placa do colégio em sua fachada.
Placa do Jardim Secreto dentro do colégio.
Foto: Acervo Ncep
Foto: Acervo Ncep
Foto: Acervo Ncep
O professor de Língua Portuguesa Davi Brito ensina com o estímulo à imaginação. Foi numa dessas aulas, durante uma visita dos extensionistas do Ncep, que surgiu uma pergunta sobre o estado do rio que passa pela Vila Torres. Da curiosidade nasceu a proposta da “Expedição Rio Belém”. Antes da expedição, realizou-se um trabalho de pesquisa sobre o percurso do rio e um reconhecimento da área, para confirmar as informações pesquisadas. Nesse mesmo dia, foi gravado um vídeo, incitando a curiosidade dos alunos antes da viagem.
A nascente do belém e o projeto
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Árvore da leitura do Jardim Secreto.
Jovens observando o rio poluído na Vila Torres.
Alunos lendo em evento do Jardim Secreto.
Foto: Acervo Ncep
Foto: Acervo Ncep
Foto: Acervo Ncep
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